6/9/2010

Na coluna A política como ela é desta semana, o jornalista e consultor político Gaudêncio Torquato questiona: O que aconteceria se Lula, mesmo com 80% de aprovação popular, tivesse adiado o tradicional carnaval de fevereiro para o mês de abril, em homenagem a um de seus ministros, o mais querido (quem seria?), se acaso este deixasse nosso meio às vésperas da festança do Rei Momo?  Para ler o artigo O direito ao riso, CLIQUE AQUI


No artigo Ante os pequeninos, o jornalista Sérgio Lapastina continua a analisar pelo viés da Comunicação as lições do livro Sinal Verde, de Chico Xavier, pelo espírito de André Luis. Segundo o colunista, não existe criança - nem uma só - que não solicite amor e auxílio, educação e entendimento. Para ler a coluna Comunicação com todas as letras, CLIQUE AQUI

 
A imprensa estrangeira, a pauta Brasil e o day-after do caso Larry Rohter, da NYT
24/08/2004 - 15:42:28
POR BERNARDO KUCINSKI

Há unanimidade na avaliação de que o governo errou ao cassar o visto de permanência de Larry Rohter no Brasil. Os jornalistas, obviamente, acham que foi um erro. O governo já reconhece que foi erro. Mesmo quem recomendou a cassação, no calor da hora, hoje reconhece que foi erro. E se o presidente cancelou a cassação, reconhece implicitamente que errou. Não havendo divergências sobre isso, não há polêmica, não há o que discutir.

Resta discutir aspectos acessórios, alguns deles provavelmente tão importantes quanto a cassação.
O principal, sem dúvida é a própria reportagem de Larry Rohter que  falseou os fatos , dizendo ao mundo, num jornal visto como referência pela mídia mundial, que o presidente Lula é um alcoólatra e que por isso tem tido problemas de governabilidade. O que teria levado um repórter experiente de um jornal importante a falsear os fatos?

A minha hipótese – e é só uma hipótese - é a de que história escrita por Larry Rohter foi publicada porque tem uma lógica interna muito forte, uma racionalidade quase imperativa, construída a partir de fragmentos colhidos pelo próprio repórter, como por  exemplo a de que pai de Lula já era alcóolatra ( e segundo depois uma matéria especialmente infamante da Folha, o avô também).Temos aí o paradigma genético. A isso, Larry foi buscar o passado “sindicalista” de Lula, um operário. Esse não é um paradigma científico, é um preconceito. O de que todo o operário bebe demais. É a lógica do preconceito se somando á lógica científica. Juntando a isso um episódio específico de ressaca do presidente, está construída a lógica do presidente alcoólatra.

Verdade? Ñão, mentira. Mas muito mais plausível e racional do que a verdade. Porque a verdade dos fatos é sempre mais complexa. Hannah  Arendt explica esse fenômeno em Crises da República, onde ela analisa o uso da mentira na guerra do Vietnã. Diz ela  que a verdade dos fatos é apenas contingente, ou seja, não é uma verdade necessária, como dois mais dois são quatro, mas uma verdade que podia ser esta ou podia ser aquela. Sendo às vezes  difícil explicar os fatos de modo coerente, a narrativa  baseada na razão  mesmo em desacordo com os fatos é mais plausível. Diz Hannah Arendt. “ Os fatos necessitam de testemunho para serem lembrados e de testemunhas de confiança para se estabelecerem, para que possam encontrar um abrigo seguro no domínio dos assuntos humanos”. As “invenções” não precisam disso. Se forem racionais, elas colam e a versão prevalece sobre o fato. “É esta fragilidade que torna o embuste tão fácil e até certo ponto tão tentador; ele não entra em conflito com a razão”.  
No jornalismo político brasileiro isso já é conhecido através da frase antológica, muito usada por José Maria Alckmim, o ministro da Fazenda da JK, : Na política a versão é mais importante do que os fatos”. Essa frase exprime algo que, de alguma forma, é inerente à natureza do jornalismo, que lida fatos que nem sempre têm uma explicação lógica. A história não tem necessariamente uma lógica, apesar de suas relações de causalidade. O jornalista da BBC Andrew Gilligan achou tão lógica a suposição do cientista David Kelly   de que o goernod e Tony Blair teria “envenenado” o relatório das armas de destruição em massa do Iraque, que tomou isso como a afirmação de um fato. Larry achou tão lógico que Lula fosse um bêbado, que tomou isso como fato.

Minha rápida investigação das circunstâncias em que isso aconteceu sugere que não se tratou de um erro ditado pela pressa ou por um descuido momentâneo. Também não foi negligência. Larry Rohter discutiu essa matéria com a Assessoria da Imprensa da presidente uma ou duas semanas antes, pelo menos duas vezes, uma pelo telefone e a outra provavelmente em pessoa. Não se convenceu de que as alegações de alcoolismo eram falsas e suas fontes não confiáveis.
A decisão dos editores do NYT de publicar também não foi fortuita. A reportagem não estava lá naquela edição de domingo para tapar um buraco, por decisão de um editor de plantão. Estava lá depois de muita discussão e vai e entre Larry Rohter e seu editor. “ Meu editor mantém a  decisão de publicar, ele disse dia antes”   à Assessoria do presidente.
O segundo aspecto acessório interessante é a má qualidade da decisão do governo, sob praticamente todos os pontos de vista: como política de comunicação, como recurso legal, como decisão estritamente política. Como tática e como estratégia. Como gerência de crise e como relacionamento regular com jornalistas.

O nosso governo tem problemas sérios de comunicação, que começam pela falta de unidade das equipes que mexem com comunicação. Por exemplo, a equipe que sabia desde muitos dias antes que Larry Rohter ia publicar essa reportagem não discutiu o que fazer com as outras equipes que mexe como comunicação. O fator surpresa  determinou a forma inábil da reação do governo.

Há um reconhecimento da centralidade da comunicação nos processos políticos atuais, mas isso não se manifesta operacionalmente e muitas decisões são tomadas sem nenhum cuidado com a comunicação.

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