5/9/2010

Na coluna A política como ela é desta semana, o jornalista e consultor político Gaudêncio Torquato questiona: O que aconteceria se Lula, mesmo com 80% de aprovação popular, tivesse adiado o tradicional carnaval de fevereiro para o mês de abril, em homenagem a um de seus ministros, o mais querido (quem seria?), se acaso este deixasse nosso meio às vésperas da festança do Rei Momo?  Para ler o artigo O direito ao riso, CLIQUE AQUI


No artigo Ante os pequeninos, o jornalista Sérgio Lapastina continua a analisar pelo viés da Comunicação as lições do livro Sinal Verde, de Chico Xavier, pelo espírito de André Luis. Segundo o colunista, não existe criança - nem uma só - que não solicite amor e auxílio, educação e entendimento. Para ler a coluna Comunicação com todas as letras, CLIQUE AQUI

 
Os correspondentes estrangeiros e a teoria da relatividade
24/08/2004 - 16:13:29
POR SANTIAGO FARRELL

Alguien me pide una explicación de la teoría de Einstein. Con mucho entusiasmo, le hablo de tensores y geodésicas tetradimensionales. 
- No he entendido una sola palabra - me dice, estupefacto.
Reflexiono unos instantes y luego, con menos entusiasmo, le doy una explicación menos técnica, conservando algunas geodésicas, pero haciendo intervenir aviadores y disparos de revólver.
- Ya entiendo casi todo - me dice mi amigo, con bastante alegría -. Pero hay algo que todavía no entiendo: esas geodésicas, esas coordenadas ...
Deprimido, me sumo en una larga concentración mental y termino por abandonar para siempre las geodésicas y las coordenadas; con verdadera ferocidad, me dedico exclusivamente a aviadores que fuman mientras viajan con la velocidad de la luz, jefes de estación que disparan un revólver con la mano derecha y verifican tiempos con un cronómetro que tienen en la mano izquierda, trenes y campanas.
- Ahora sí, ahora entiendo la relatividad! - exclama mi amigo con alegría.
- Sí, - le respondo amargamente -, pero ahora no es más la relatividad. 
Ernesto Sábato: Uno y el universo. Sudamericana. Buenos Aires. 1968. 

Se admitirmos que a informação jornalística sempre supõe um "empobrecimento" da realidade, para garantir sua difusão massiva em termos compreensíveis, a informação escrita para um leitor estrangeiro que desconhece quase tudo de um país é ainda mais "rasa”.
Se quiser ser um bom correspondente estrangeiro, um jornalista sempre deverá lembrar -um conselho que, acredito, vale para todos os jornalistas - que seu ofício é lidar com a informação, não com o conhecimento.
Deverá assumir que ninguém "conhecerá a fundo" nada de um país lendo suas matérias. E deverá renunciar à pretensão de que isso ocorra, porque assim poderá escrever melhor.
É o que deveria sentir Sábato, que além de escritor é físico, ao tentar explicar a teoria da relatividade a um amigo.
Existe, então, algo assim como um pecado original em toda história que um repórter estrangeiro residente no Brasil escreve para seu jornal.
O importante será que - como Sábato esclarece ao seu amigo- ninguém acredite, depois de ler uma reportagem, que conhece o Brasil. Apenas conhecerá alguma personagem, alguma situação singular ou curiosa. Mas conhecer o Brasil é outra coisa.
Alguém se atreve a explicar a CPI do Banestado, a definir ideologicamente o PMDB ou a descrever o sistema de mídia brasileiro, em 300 linhas como máximo e para um leitor norueguês ou colombiano?
Pode um jornalista estrangeiro dizer que uma proposta do governo é "muito Estado Novo", como li por , sem ter de preparar um box  interminável para explicar a imagem?
O correspondente de um meio estrangeiro enfrenta desafios particulares no seu trabalho, diferentes aos dos seus colegas da imprensa local. Sua agenda é outra, suas prioridades são outras, até seus horários são outros.
Por motivos óbvios, a maioria dos meios de comunicação representados em um país como o Brasil  é de países desenvolvidos, que contam com recursos para ter um correspondente fixo, para complementar as informações apuradas pelas agências de notícias.
Nesse caso, é imprescindível lembrar que a informação “hard” (hard news), com estatísticas, voltada para as grandes áreas de informação, como política, economia ou esportes, chega aos jornais por meio das agências.
Por isso, um correspondente deve sempre encontrar um foco próprio, que complemente os “dados” e que justifique seu trabalho. Essa é sua função.
O Brasil é mais do que índios, Amazônia, camponeses sem terra e desigualdades econômicas e sociais quase únicas no mundo. É verdade. Mas esses são elementos que diferenciam o país dos outros, que o tornam singular. Além disso, não deixam de serverídicos”.
Os correspondentes podem insistir nesses temas, porque outros têm coberturas das agências. É nesses temas, os chamados “features”, onde podem fazer a diferença. Não há nenhuma “intenção” oculta nessa insistência.
Claro que esse desafio de traduzir a realidade em termos compreensíveis, e ao mesmo tempo atraente, é o que às vezes pode levar a extremos.
Um risco conhecido são as comparações que, como todos sabemos, às vezes confrontam dois termos de forma tão arbitrária que isto pode ser resumido no que aquele mexicano dizia sobre duas cervejas do seu país:”São o mesmo, mas diferentes”.
Ali é quando os coronéis nordestinos brasileiros passam a sersenhores feudais”, o projeto de Parcerias Público Privada do governo Lula é o “New Deal Tropicalou a música sertaneja é o “country brasileiro”.
Entre os correspondentes sempre circula a história daquele enviado especial que chegou pela primeira vez a um país, tomou um táxi, conversou com o motorista e ao chegar ao hotel escreveu uma longa reportagem sobre a situação política daquele país.
Depois de refletir brevemente sobre o trabalho cotidiano dos correspondentes estrangeiros, gostaria de destacar alguns elementos interessantes que trouxe à luz pública o artigo de Larry Rohter, que teve tanta repercussão.
Pela natureza do Congresso que compartilhamos, gostaria de me concentrar naqueles elementos vinculados ao exercício do jornalismo.
As discussões entre jornalistas que acompanharam o affaire deixaram emergir uma incompreensão de muitos colegas brasileiros em relação ao trabalho e à condição de muitos correspondentes estrangeiros.
É muito injusto que colegas brasileiros acreditem que porque alguém trabalha para um meio de comunicação de um país, o tenha nascido nesse país, compartilhe opiniões do seu governo ou tenha uma atitude “corporativa” com seus interesses.  
Para isso estão as embaixadas, não os jornalistas.
Em um debate pelo caso Rohter em um chat de um site de jornalistas, um colega argentino que trabalha em uma agência de notícias francesa ouviu reclamações sobre a selvagem política colonial da França na Argélia.
É muito injusto que muitos colegas brasileiros creiam que porque alguém trabalha como correspondente de um poderoso jornal de um país desenvolvido ele tem o mesmo poder. Ou tem tantos recursos quanto o jornal.
A família Marinho é, sem dúvida, uma família rica. São ricos todos os jornalistas que trabalham na Globo? Têm o mesmo poder e influência?
Nenhum jornalista brasileiro aceitaria a acusação de que quando critica seu governo está ofendendo sua pátria. Não vejo porque esse argumento seria válido para um estrangeiro.
E muito mais quando as críticas incluídas em um artigo não são desses jornalistas, mas de brasileiros que são tão brasileiros quanto os funcionários do governo.
É muito injusto que pelo fato de um jornalista ser norte-americano seja considerado agente da CIA. Ou que um ministro sugira que uma matéria jornalística se deva aos êxitos do governo Lula no mundo.
Há os que viram nessa reação um sempre necessário antiamericanismo. Para mim foi simples chauvinismo e demagogia.
Sobre a atitude do governo Lula em relação ao artigo do New York Times, não tenho nenhuma reflexão original para acrescentar. Tratou-se de uma resposta autoritária, que utilizou o aparelho de Estado para responder a uma questão que deveria ter ocorrido - se considerado necessário - no âmbito da Justiça e a titulo pessoal.
Em nenhum momento sequer se encostou na investidura presidencial na reportagem em questão. Falou-se da pessoa que, transitoriamente, ocupa hoje a Presidência do Brasil. Se a historia tivesse tratado sobre algo assim comoPara ser presidente do Brasil é preciso ser corrupto e ladrão”, a questão seria outra.
Finalmente, acho que o “affaire Rohter” foi uma boa oportunidade para debates como este sobre a natureza do trabalho jornalístico e sobre as condições do seu exercício no Brasil, tanto para brasileiros quanto para estrangeiros.

Busca