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Na coluna A
política como ela é desta semana, o jornalista e consultor político Gaudêncio Torquato questiona: O que
aconteceria se Lula, mesmo com 80% de aprovação popular, tivesse adiado o
tradicional carnaval de fevereiro para o mês de abril, em homenagem a um de
seus ministros, o mais querido (quem seria?), se acaso este deixasse nosso meio
às vésperas da festança do Rei Momo? Para ler o artigo O direito ao riso, CLIQUE
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No artigo Ante os pequeninos, o jornalista Sérgio Lapastina continua a analisar pelo viés da Comunicação as
lições do livro Sinal Verde, de Chico Xavier, pelo espírito de André Luis.
Segundo o colunista, não existe criança - nem uma só - que não solicite
amor e auxílio, educação e entendimento. Para ler a coluna Comunicação com
todas as letras, CLIQUE AQUI
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| As idéias expressas pelo autor não refletem, necessariamente, a opinião do Jornal da Comunicação Corporativa e de seus editores. |
O direito ao riso
03/09/2010 - 08:34:06
O que
aconteceria se Lula, mesmo com 80% de aprovação popular, tivesse adiado o
tradicional carnaval de fevereiro para o mês de abril, em homenagem a um de
seus ministros, o mais querido (quem seria?), se acaso este deixasse nosso meio
às vésperas da festança do Rei Momo? O povão de Salvador, do Recife, do Rio de
Janeiro e de outras capitais, fazendo coro ao seu herói, teria começado o fuzuê
apenas dois meses depois? Pouco provável. Mais certo seria apostar na repetição
da História. Em fevereiro de 1912, às vésperas do carnaval, morria o Barão do
Rio Branco, a figura mais insigne da história de nossa diplomacia. Ministro das
Relações Exteriores desde o governo Rodrigues Alves, ganhou homenagem póstuma
do marechal Hermes, presidente da República, com o adiamento do carnaval. O que
fez a turba? Foi para as ruas em fevereiro, brincou em abril e ainda gozou a
decisão presidencial solfejando a estrofe do jornal A Noite: "Com a
morte do Barão,/ tivemos dois carnavá./ Ai que bom, ai que gostoso,/ se
morresse o marechá."
A galhofa, o deboche, o toque irreverente são traços marcantes do caráter
nacional. Quando represados por uma engrenagem de normas e proibições, sempre
encontram o jeitinho das águas e acabam se infiltrando nas frestas das rochas
para seguir seu fluxo. A imagem vem a propósito da proibição de usar o humor
para caricaturar a política, neste momento em que candidatos se apresentam à
avaliação do povo, que escolherá em outubro os novos quadros da democracia
representativa. O impedimento abarca conceitos como "trucagem, montagem ou
outro recurso de áudio e vídeo que, de qualquer forma, degradem ou
ridicularizem candidato, partido ou coligação". Ao fim e ao cabo, trata-se
de impor sanções aos humoristas.
A simples comparação entre passado e presente mostra que o atual momento
político-institucional tem imposto freios à criatividade. Basta um rápido olhar
no ciclo dos governantes que habitaram a República no Catete. Foram figuras
emolduradas pelos humoristas da época. A historiadora Isabel Lustosa apresenta
a galeria que começa com o Biriba (Prudente de Moraes), passando pelo Patriarca
do Baranhão (Campos Sales), Papai Grande (Rodrigues Alves), Tico-Tico (Afonso
Pena), Moleque Presepeiro (Nilo Peçanha), Dudu e a Urucubaca (Hermes da
Fonseca), Tio Pita (Epitácio Pessoa), Seu Mé (Artur Bernardes), Rei da Fuzarca (Washington
Luis), chegando a Gegê (Getúlio Vargas) e JK. O cotidiano dos governantes era
satirizado por um conjunto de revistas e jornais ilustrados. Mesmo perfis
carrancudos aguentavam o tranco. Getúlio, então, era muito gozado pela vontade
de se perpetuar no poder. Em outubro de 1945, por exemplo, botava-se em sua
boca a piada: "Meu candidato é o Eurico; mas, se houver oportunidade, Eu
Fico."
Qualquer pedaço de nossa História registra criativa contribuição do humor como
ferramenta de crítica social. É verdade, porém, que ele tem perdido substância,
de um lado, porque a política se distanciou da sociedade e, de outro, porque o
próprio corpo legislativo, para salvaguardar a imagem, procurou esculpir um
conjunto de normas para restringir a semântica e a estética da arte
humorística. Sob a hipótese de que o chiste possa embalar perfis com o celofane
da desmoralização, os legisladores acabaram criando uma camisa de força que
delimita o espaço criativo de uma arte que satiriza o universo político desde a
Idade Média. O paradoxo é inevitável: em plena sociedade da informação, sob o
escudo dos direitos individuais e coletivos, entre eles o de liberdade de
manifestação do pensamento, cerne da democracia, apertam-se os elos da
expressão artística. Um absurdo dentro do Estado democrático.
Se cada grupamento quiser impor um sistema próprio de regras para determinar o
que entende por direitos, acabaremos por ter um arcabouço capenga em torno da
defesa social. O escopo da igualdade e da cidadania não se forma a partir de restrições,
numa banda, e ganhos corporativos, noutra. A defesa sobre "o que é
politicamente correto" soçobra quando gera, em outra esfera, consequências
incorretas. Numa sociedade democrática, o direito ao riso não pode ser contido
pela defesa da mordaça.
Voltemos ao passado. Antonio Carlos Magalhães, governador da Bahia, perguntou
um dia a Jânio: "E aquela história de que o senhor gostava de ver filmes
de bangue-bangue nas madrugadas de Brasília para aliviar as tensões do governo,
é verdade?" Jânio respondeu: "É verdade, ficava até as 3 da manhã.
Papapapapa... para ter a sensação de estar matando parlamentares." Hoje,
uma história assim seria impensável. Nem mesmo o idolatrado Lula, um contador
de causos, teria coragem de fazer tal analogia.
P. S.: A decisão do ministro Carlos Ayres Britto, do STF, de suspender a
proibição do humor na eleição merece aplausos. Aguardemos o exame do mérito do
caso em plenário.
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